O Dia Mundial da Água nos leva a reflexão: o que a água significa para você?

Por Dr. Ricardo Camilo Galavoti, Doutor em Ciências com concentração em Engenharia Hidráulica e Saneamento (EESC / USP) escreveu com exclusividade no Dia Mundial da Água para AMBIENTAL MERCANTIL NOTÍCIAS | Seção Opinião de Especialista.

Valorando a água – tema do Dia Mundial da Água 2021

A água é um recurso finito e não substituível. Como base da vida, das sociedades e economias, carrega múltiplos valores e benefícios. Ao contrário, porém, da maioria dos recursos naturais, tem se provado ser extremamente difícil determinar seu verdadeiro “valor” (1).

O que a água significa para você?

A água significa diferentes coisas para diferentes pessoas e em diferentes contextos.

Quão importante é a água para sua vida doméstica e familiar, seu sustento, suas práticas culturais, seu bem estar, seu meio ambiente local?

Pela recordação e celebração de todas as diferentes formas pelas quais a água beneficia nossas vidas, e não apenas focando na precificação da água como recurso, podemos valorar (atribuir valor) e valorizar (dar importância real) para a “água nossa de cada dia”, e efetivamente salvaguardar a água para todos (2).

No documento “World Water Development Report 2021 – Valuing Water”, a ser lançado no Dia Mundial da Água 2021, metodologias e abordagens para a valoração da água são descritas através de 5 (cinco) perspectivas interrelacionadas (1):

1 – Valoração das fontes de água e ecossistemas que dependem de tais fontes;

2 – Valoração da infraestrutura de armazenamento, uso, reúso ou de ampliação dos sistemas de abastecimento de água;

3 – Valoração dos serviços de fornecimento de água, especialmente água potável, saneamento e aspectos correlatos de saúde humana;

4 – Valoração da água como insumo nas atividades de produção e atividades sócio-econômicas, tais como na indústria alimentícia e agricultura, energia e indústria, negócios e empregos; e outras valorações sócio-culturais da água, incluindo atributos recreacionais, culturais e espirituais.

Estas perspectivas são complementadas, neste relatório, com experiências de diferentes regiões do mundo, oportunidades para a reconciliação de múltiplos valores da água através de abordagens integradas e holísticas de mecanismos de governança e de financiamento, e perspectivas para dar respostas para necessidades de conhecimento, pesquisa e capacitação.

O relatório é publicado pela UNESCO/UN-Water, e sua produção é coordenada pelo UNESCO World Water Assessment Programme. Lançado em conjunto com o Dia Mundial da Água, fornece, aos tomadores de decisão, ferramentas e conhecimento para a formulação e implementação de políticas sustentáveis para o uso da água. Oferece também melhores práticas e análises detalhadas visando estimular idéias e ações para uma melhor gestão no setor da água, e além do mesmo (1).

No princípio, a água – um pouco da água na História – Como os povos antigos davam grande valor e importância (prática e simbólica) à água

Algumas afirmações sobre a valoração da água, conforme nos mostra a História, podem parecer contraditórias e paradoxais. Uma delas, “O Egito é uma dádiva do Nilo”, foi dita por Heródoto, geógrafo e historiador grego, há 2.500 anos. Aqui precisamos analisar uma relação de causa e efeito, na qual vemos a atuação do princípio de valoração/valorização adequada da água, o qual por vezes ignoramos, ou até mesmo desprezamos, com conseqüências muitas vezes desastrosas.

Além do Egito, o Nilo banha outros nove países e garante a sobrevivência dessas nações desde a Antiguidade. Suas cheias traziam sedimentos que tornavam as terras férteis para a agricultura. Fornecia água potável e numerosos peixes, incentivando o aprimoramento das técnicas de pesca. Seu grande potencial para a navegação também facilitou o transporte de mercadorias entre diversos povos. Sua relevância histórica e inclusive bíblica é incontestável.

Moisés, cujo nome significa “porque das águas foi tirado”, o grande líder do Êxodo, figura marcante da história israelita, é também um reflexo do valor simbólico dado a este recurso natural, representativo da própria origem da vida.

Outras grandes civilizações floresceram e caíram às margens de cursos dágua, a exemplo de Babilônia, a qual, segundo o mesmo Heródoto, sofreu sua derrocada em apenas uma noite.

Voltando ao princípio da valoração da água e às conseqüências de ignorá-lo ou desprezá-lo, Heródoto nos conta que Ciro havia anteriormente feito secar o Palacopas, um canal que atravessava a cidade de Babilônia, levando as águas supérfluas do Eufrates para o lago Nitócris, a fim de desviar o rio para ali. Assim, o rio baixou de nível, e seus soldados puderam penetrar na cidade através do leito quase seco. Dentro da cidade, completamente alienado ao que ocorria, o rei Belsazar encontrou o seu fim e o fim de seu império.

Vemos aqui novamente o poderoso simbolismo da água, doadora de vida, sim, mas também ceifadora de vidas quando as circunstâncias, naturais ou provocadas pelo homem, cooperam para tanto, mostrando, porém, seu imenso valor para a humanidade e a necessidade de sua adequada gestão.

Um dos flagelos mais comuns que sempre perseguiram a humanidade foram as enchentes dos rios, causando inundações e destruindo cidades. As enchentes ocorrem com maior freqüência em regiões desérticas, onde a ausência da vegetação reduz a absorção pelo solo e facilita o rápido escoamento superficial, levando ao enchimento rápido dos rios (8).

Entretanto, o mesmo rio Nilo que tanto beneficiou o Egito com as suas dádivas, através de suas cheias periódicas a proporcionar colheitas abundantes, por sua vez fez deste grande império uma dádiva ainda maior para o mundo antigo e para a humanidade, em todos os tempos.

Para muito além da simples precificação

A percepção da água como um recurso natural cada vez mais escasso e ameaçado, em substituição à imagem tradicional de um recurso totalmente renovável e abundante na maior parte do planeta, é muito recente no cenário internacional (3).

Fator indispensável à vida, à saúde pública e ao desenvolvimento socioeconômico, a água é um recurso cada vez mais escasso e disputado, que tem sido ameaçado em todo o planeta não apenas pela poluição urbana, agrícola e industrial, mas também pelo crescimento acelerado da demanda, a ineficiência e o desperdício observados nos seus múltiplos usos em diversas atividades humanas.

As necessidades vitais de higiene e alimentação das pessoas e a maior parte da atividade econômica dependem basicamente da água doce, cujo estoque representa menos de 1 % da disponibilidade hídrica mundial, tendo sua capacidade de renovação e autodepuração mediante processos naturais crescentemente comprometida pelo desmatamento, a poluição e a super exploração dos mananciais.

Por outro lado, o abastecimento permanente de água potável e o esgotamento sanitário devem ser vistos como direito e necessidade fundamental das pessoas, pois estima-se que a falta do chamado saneamento básico, que congrega ambos os serviços, seja responsável por cerca de metade da mortalidade infantil e também da ocupação dos leitos hospitalares registrada no mundo todo, de modo que cada dólar investido neste setor poderia economizar outros quatro a cinco em despesas médicas e hospitalares (3).

O quadro acima apresentado, ainda que passível de atualização de dados, em função do tempo transcorrido, ilustra a importância da valoração da água para todas as atividades humanas, fornecendo um vislumbre dos impactos que acarreta sobre a economia global apenas nos aspectos de saúde humana, sem prejuízo de outros impactos como os de natureza ambiental decorrentes, e entre muitos outros fatores, os conflitos de interesses existentes, por exemplo.

Tais conflitos apresentam potencial para influir na questão do valor atribuído à água, o que há anos já vem ocorrendo, de acordo com determinado autor: certa “pressão da mundialização neoliberal”, pela qual “a gestão da água está passando às empresas privadas, geralmente com aumento de preços, opacidade nas transações e superendividamento dos países pobres, intimados pelos organismos financeiros internacionais a cederem seus reservatórios” (4).

Considerando ou não a premissa de que o controle dos recursos hídricos esteja em um movimento de troca de mãos, ou seja, do setor público para o privado, prevalece hoje, como nunca dantes, uma premente necessidade de se valorar e valorizar muito mais os recursos hídricos disponíveis através de um processo de gestão sábio e competente, e em circunstâncias particularmente agravantes, no caso, das mudanças climáticas, tema esse, aliás, abordado no Dia Mundial da Água do ano de 2020 (3):

“A água é nosso mais precioso recurso – precisamos usá-lo de maneira mais responsável. Temos de encontrar o equilíbrio entre todas as demandas hídricas da sociedade, enquanto asseguramos que as populações mais pobres não sejam deixadas para trás.”

“As reservas hídricas estão sob constante pressão, na medida em que a população global cresce e os recursos naturais são exauridos; as mudanças climáticas servem apenas para exacerbar esta situação.” (5).

O tema das mudanças climáticas colocou em evidência a fragilidade do maior sistema produtor de água da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) – o Sistema Cantareira, durante a séria crise hídrica ocorrida em 2014-2015, evidenciando, além de graves falhas estruturais, uma (6) problemática bem mais ampla: a governança multinível da água nas bacias hidrográficas densamente urbanizadas numa era de grandes mutações e incertezas climáticas, sendo que a segurança hídrica da metrópole paulista (6) envolve arenas decisórias, sistemas sociotécnicos, cooperação e conflitos que operam numa escala macrorregional, interconectando diferentes aglomerações urbanas e bacias hidrográficas, portanto inserida numa realidade e contexto muito mais complexos do que inicialmente se podia imaginar.

Outros aspectos a considerar

Podemos considerar ainda que a valoração da água passa por critérios políticos e sociais, como se poderá verificar no documento “World Water Development Report 2021 – Valuing Water”. Como recurso essencial e estratégico, constitui também um indutor de pobreza ou de riqueza, de acordo com interesses variados, e um vetor de transformações sócio-econômicas para as populações do mundo.

Tão essencial quanto o alimento diário, e tão preciosa quanto o ouro, o “ouro azul”, (7) ameaçado (a) por acordos comerciais internacionais envolvendo a privatização e o mercantilismo, esta água que bebemos, de acordo com o Tratado para Compartilhar e Proteger a Água- o Bem Comum do Planeta:

“Não pode ser vendida por nenhuma instituição, governo, indivíduo ou corporação para obtenção de lucro, uma vez que as nações do mundo declaram o suprimento de água doce da Terra como suprimento comum global, a ser assistido por todas as pessoas, comunidades e governos de todos os níveis. Declaram ainda que a água doce não será privatizada, comercializada, ou exportada para propósitos comerciais e deve ser imediatamente isenta de todo acordo bilateral e internacional e de acordos de investimento existentes e futuros” (7).

Mas seria este o quadro que estamos vendo hoje? Mais importante ainda, qual será o cenário a ser desenhado para as próximas décadas?

::: Repetindo a pergunta inicial: O que a água significa para você? :::

Sobre o Autor

Dr. Ricardo Camilo Galavoti, Tecnólogo em Saneamento (FT/Unicamp), Mestre em Engenharia Civil e Doutor em Ciências com concentração em Engenharia Hidráulica e Saneamento (EESC / USP).

Autor do livro: USO E GESTÃO EFICIENTE DA ÁGUA EM EDIFICAÇÕES: APROVEITAMENTO PLUVIAL E REUSO DE ÁGUAS RESIDUAIS -PESQUISAS E SUAS APLICAÇÕES

Referências

(1) UNESCO (2021). Acessível em:  https://en.unesco.org/themes/water-security/wwap/wwdr/2021. Acesso em 20.03.2021.

(2) UN WATER (2021). Acessível em:https://www.worldwaterday.org/stories/story/coming-soon-united-nations-world-water-development-report-2021-valuing-water. Acesso em 20.03.2021.

(3) VARGAS, M. C. (2005). O negócio da água: riscos e oportunidades das concessões de saneamento à iniciativa privada: estudos de caso no Sudeste brasileiro. / Marcelo Coutinho Vargas. — São Paulo: Annablume , 2005.

(4) BOUGUERRA, M. L. (2004). As batalhas da água: por um bem comum da humanidade / Mohamed Larbi Bouguerra; tradução de João Batista Kreuch.  – Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

(5) DIA MUNDIAL DA ÁGUA 2020. Água e Mudança Climática estão inextricavelmente ligadas, segundo UN-Water. Disponível em: https://noticias.ambientalmercantil.com/21/03/2020/agua-e-mudanca-climatica-estao-inextricavelmente-ligadas-segundo-unwater/

(6) VARGAS, M. C. (2020). Mudanças Climáticas e hidropolítica na macrometrópole paulista: uma análise da crise “hídrica” (2014-2015) a partir do Sistema Cantareira / Marcelo Coutinho Vargas. – 1. ed. – Curitiba: Appris, 2020.

(7) MOUDE BARLOW/TONY CLARKE. Ouro Azul. 2003 – São Paulo – Makron Books Editora Ltda.

(8) BRANCO, SAMUEL MURGEL. Água: Origem, Uso e Preservação (1993). São Paulo, Editora Moderna.

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Crédito:
Ambiental Mercantil Notícias | Opinião de Especialista

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