TFCD: Organização global pode ser uma ferramenta de combate ao greenwashing
Para combater o greenwashing, tanto em nível governamental quanto corporativo, é importante ter acesso a dados confiáveis e baseados em ciência. A Task Force on Climate-Related Financial Disclosures (TFCD) é uma organização global criada para desenvolver um conjunto de recomendações sobre divulgações relacionadas ao clima. A TCFD foi estabelecida em 2015 pelo Financial Stability Board (FSB), uma organização internacional que monitora e faz recomendações sobre o sistema financeiro global. Seu objetivo principal é melhorar e aumentar a divulgação de informações financeiras relacionadas ao clima.
A TCFD fornece um framework globalmente reconhecido para que organizações divulguem seus riscos, oportunidades e impactos financeiros relacionados ao clima. Desde sua criação, a TCFD ganhou apoio de mais de 4.000 organizações em 101 jurisdições, representando um valor de mercado combinado de USD 27 trilhões. Embora as recomendações da TCFD tenham começado como diretrizes voluntárias, elas estão rapidamente se tornando parte do marco regulatório obrigatório em muitas jurisdições, incluindo a União Europeia, Singapura, Canadá, Japão e África do Sul.
As recomendações da TCFD são organizadas em quatro áreas principais:
- Métricas e Metas: As métricas e metas usadas para avaliar e gerenciar riscos e oportunidades relevantes relacionados ao clima. Iniciativas como o Task Force on Climate-Related Financial Disclosure (TFCD) buscam implementar recomendações para a divulgação e análise de riscos e oportunidades relacionados às questões climáticas.
- Governança: Como a organização supervisiona e gerencia os riscos e oportunidades relacionados ao clima.
- Estratégia: Os impactos reais e potenciais dos riscos e oportunidades climáticos nos negócios, estratégia e planejamento financeiro da organização.
- Gestão de Riscos: Como a organização identifica, avalia e gerencia os riscos relacionados ao clima.
As divulgações alinhadas à TCFD permitem que as empresas melhorem sua compreensão dos riscos e oportunidades relacionados ao clima a longo prazo, respondam à crescente pressão de governos, consumidores e investidores para abordar as mudanças climáticas, tomem decisões mais informadas sobre alocação de capital e gestão de riscos.
Na COP26, foi anunciada a formação do International Sustainability Standards Board (ISSB), no qual a TCFD convergirá. Isso visa harmonizar os padrões de divulgação de sustentabilidade com os padrões contábeis internacionais. A TCFD é uma iniciativa fundamental para melhorar a transparência e a comparabilidade das informações financeiras relacionadas ao clima.
A TCFD contribui para o combate ao fake news e greenwashing relacionadas ao clima de várias formas:
- Padronização de divulgações: A TCFD estabelece um framework consistente para que empresas relatem informações climáticas, dificultando a disseminação de dados enganosos ou inconsistentes.
- Foco em dados baseados em ciência: As recomendações da TCFD enfatizam o uso de métricas e metas fundamentadas em evidências científicas, reduzindo o espaço para afirmações infundadas.
- Transparência aprimorada: Ao exigir divulgações detalhadas sobre governança, estratégia, gestão de riscos e métricas relacionadas ao clima, a TCFD promove maior transparência, tornando mais difícil para as empresas fazerem alegações vagas ou enganosas.
- Comparabilidade: O framework da TCFD permite que investidores e stakeholders comparem facilmente as práticas climáticas entre diferentes empresas, expondo potenciais discrepâncias ou exageros.
- Incentivo à verificação independente: As diretrizes da TCFD encorajam a verificação externa das informações divulgadas, aumentando a credibilidade e reduzindo o risco de greenwashing.
Ao fornecer um padrão robusto e baseado em evidências para divulgações climáticas, a TCFD ajuda a criar um ambiente de informação mais confiável e transparente, dificultando a propagação de fake news e práticas de greenwashing no âmbito das questões climáticas e financeiras.
Atualmente, o problema vai além das empresas e se infiltra em governos e políticas públicas, enganando cidadãos e comprometendo o futuro, de forma inconsequente.
Como ser um cidadão crítico e consciente?
O marketing greenwashing engana sobre o real impacto ambiental, prejudica os esforços autênticos de sustentabilidade e cria uma falsa “confiança coletiva” com informações enganosas ou que omitem dados importantes. Por exemplo, um recurso não se torna sustentável apenas por ser renovável; é essencial investigar como essa fonte realmente afeta o meio ambiente.
O ponto de partida é a régua do “impacto ambiental”. O primeiro passo é se questionar como o impacto ambiental está sendo justificado até se tornar verdadeiramente “sustentável”. Muitas vezes, a narrativa não começa do início, omitindo o principal: o impacto real. Em vez disso, inicia-se a partir de conveniências, o que já é uma forma de greenwashing.
Por isso, é fundamental investigar quem promove a informação e quais interesses podem estar por trás dela. Avalie as práticas de responsabilidade social e ambiental de governos e empresas. Essas perguntas são fundamentais para discernir entre o que é verdadeiro e o que é uma mera fachada. Ao adotar essa postura crítica, você se equipará melhor para tomar decisões informadas e contribuir para um futuro mais sustentável.
- São interesses puramente econômicos ou há um compromisso genuíno com a sustentabilidade e a preservação ambiental?
- Elas estão realmente investindo em políticas de produção que minimizam o impacto ambiental?
- As informações sobre suas iniciativas de sustentabilidade são transparentes e facilmente acessíveis?
Um exemplo prático, o fato de um recurso ser de fonte “renovável” não garante que seja também “sustentável”. Ao conduzir uma análise crítica, podemos determinar se o termo “fonte sustentável” realmente se aplica a uma “fonte renovável” ou se, na verdade, é uma forma de grupos econômicos mascararem suas atividades, causando danos ambientais significativos.
Um exemplo claro são os biocombustíveis, que, embora provenientes de fontes renováveis, não são sustentáveis.
Sua produção muitas vezes resulta em uso de grandes áreas o que pode levar ao aumento significativo de desmatamentos, contaminação do solo e águas (como lençóis freáticos e rios) por agrotóxicos, e degradação permanente do solo, que pode levar à desertificação devido à prática de monoculturas. Essas práticas não apenas comprometem a biodiversidade, mas também afetam negativamente a qualidade de vida das comunidades locais, tornando impossível classificar os biocombustíveis como uma alternativa sustentável.
Por isso, devemos sempre considerar não apenas a capacidade de um recurso se regenerar, mas também os efeitos de sua extração, produção e uso nas áreas que impactam os ecossistemas, a biodiversidade e as comunidades locais. É fundamental realizar uma análise do ciclo de vida para entender as emissões de gases de efeito estufa associadas a cada etapa desse processo, do início ao fim, antes de classificar um recurso como “sustentável”.
O combate ao greenwashing exige um esforço coletivo: envolve profissionais de comunicação, veículos de mídia, consumidores, agências reguladoras, associações de classe e indústrias comprometidas com a sustentabilidade. Estamos cientes de que atingimos um limite crítico e que não podemos mais “brincar de sustentabilidade”, pois os recursos do nosso planeta não suportam mais políticas inconsequentes e superficiais.
Todos nós somos peças-chave nessa batalha em defesa do nosso único planeta: a Terra. Afinal, não existe um planeta B. Portanto, não seja omisso. Aja, questione e exija práticas verdadeiras e responsáveis que respeitem o meio ambiente. Juntos, podemos fazer a diferença e garantir a transformação verdadeira.