Em meio ao lixo das chuvas no Rio Grande do Sul, catadores não conseguem trabalhar

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Foto: Agência Pública - Desastre no Rio Grande do Sul gerou 47 milhões de toneladas de entulho.
Foto: Agência Pública - Desastre no Rio Grande do Sul gerou 47 milhões de toneladas de entulho.

Imagem: Divulgação | Por Bruno Felin, Lara Ely – Agência Pública

  • Estudo inédito mapeou 47 milhões de toneladas de entulhos causados pelas chuvas; limpeza deve levar anos.
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Maio de 2024 – Quando a água da enchente no Rio Grande do Sul baixar, o que restará além do sofrimento humano serão cerca de 47 milhões de toneladas de entulho. O número é semelhante ao de locais que passam por guerras, terremotos ou tsunamis. O cálculo, obtido pela Agência Pública, foi desenvolvido por Guilherme Marques Iablonovski, cientista de dados espaciais na Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ONU), e Martin Bjerregaard, consultor em resíduos pós-catástrofe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

Ao mesmo tempo, um ponto contraditório dessa história é que justamente as pessoas mais essenciais para o trabalho de limpeza das cidades – os catadores – foram duramente afetadas pelas enchentes. Moradores de regiões periféricas, áreas irregulares ou até mesmo ocupações, são dependentes de políticas sociais e por vezes encontram na reciclagem a única forma de subsistência.

Ao todo, sete das 17 unidades de triagem que fazem a separação de resíduos em Porto Alegre foram alagadas. Além de os galpões terem sido invadidos pela água ou destelhados, a falta de luz deixa equipamentos inoperantes. As estradas bloqueadas impedem o transporte do material para clientes de logística reversa em estados vizinhos. A instabilidade do sistema da Secretaria da Fazenda (Sefaz) dificulta a emissão de notas fiscais, o que torna inviável o processo de compra e venda de sucata.   

Em Canoas, na região metropolitana, quatro cooperativas foram diretamente afetadas. Grande parte dos cooperados e seus familiares está em abrigos ou isolada em suas casas.

“Essa enchente deixou quem já estava ruim ainda pior, por conta da falta de reconhecimento, investimento, preços baixos dos recicláveis. As pessoas estão sem casa, sem trabalho, sem nada”, diz Michele Ferreira dos Santos, catadora e coordenadora da cooperativa Renascer.  

Entre a região metropolitana de Porto Alegre e o Vale dos Sinos, estima-se que 2,5 mil catadores de resíduos recicláveis perderam seu sustento com as cheias. Segundo o Movimento Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (MNCR), são 1,5 mil trabalhadores individuais – moradores principalmente das ilhas do Guaíba e da zona Norte da capital – que cumprem sua tarefa nas ruas, enquanto cerca de mil são cooperados, atuando nas unidades de reciclagem.   

“Todo mundo foi diretamente ou indiretamente afetado. Está tudo muito confuso e amarrado, são muitos fatores que impactam na nossa renda”, explica a presidente do Fórum dos Catadores de Porto Alegre, Paula Medeiros, também coordenadora do Centro de Educação Ambiental Vila Pinto. 

Por que isso importa?

  •  A estimativa é que cerca de 2,5 mil catadores estejam com seu trabalho interrompido pelo desastre.
  • Trabalhadores são essenciais para a limpeza e reconstrução do estado.
  • Segundo o estudo, há 47 milhões de toneladas de entulho geradas pela inundação no Rio Grande do Sul.
  • Limpeza pode levar anos, mas pode ser otimizada com plano de aproveitamento de materiais.

Passados os primeiros dias de resgates e salvamentos, ela coordenou uma reunião com lideranças das unidades de triagem em uma tentativa de endereçar as primeiras necessidades e retomar gradualmente o trabalho. Foram redigidos ofícios solicitando à gestão municipal apoio para o enfrentamento da situação. O primeiro pedido foi em relação ao adiantamento de duas parcelas do auxílio emergencial, de R$ 670, um benefício criado pós-pandemia para apoiar a reestruturação financeira dessa população. O movimento organizado da classe também luta para angariar recursos, com apoio da Associação Nacional dos Catadores (ANCAT), e cestas básicas.  

“Planilhamos a situação emergencial de todas as unidades de triagem. Não sabemos se é possível aproveitar os espaços e equipamentos que ficaram. Além disso, para retomar nosso trabalho, tem a limpeza, para o qual precisaremos de botas, capa de chuva, a reconstrução dos telhados”, avalia a presidente. 

Hoje, os resíduos sólidos domiciliares de Porto Alegre passam pela Estação de Transbordo da Lomba do Pinheiro (Unidade de Triagem e Compostagem – UTC) e de lá são transportados para a Companhia Riograndense de Valorização de Resíduos, aterro sanitário privado, no município de Minas do Leão, distante 105 km de Porto Alegre. Com as estradas interrompidas, todo material da coleta seletiva e lixo domiciliar que não está chegando ao destino final é armazenado na UTC, onde 96 pessoas atuam na triagem.

“Expostos à pressão psicológica por mexer no que sobra nas casas de toda uma cidade alagada, os catadores estão trabalhando para separar montanhas e montanhas de lixo”, explica Medeiros. 

Quando baixar a água, a mistura de lama, corpos e carcaças de bichos irá compor um tipo de resíduo altamente contaminado, o que inviabiliza, segundo Medeiros, a separação pelos catadores.

Quase meio milhão de edificações afetadas – o cálculo do desastre

Segundo os cientistas ouvidos pela Pública, ao todo mais de 400 mil edificações já foram afetadas pelo desastre, sendo 44,6 mil destruídas ou severamente danificadas por fortes correntezas e outras 170 mil com grande probabilidade de terem danos estruturais graves por estarem submersas durante vários dias. Cidades varridas pela força das águas, como Canoas, São Leopoldo, Eldorado do Sul, Roca Sales e Muçum, onde muitas residências e construções foram ao chão, se tornaram um enorme emaranhado de resíduos de todos os tipos. 

Divulgação

Iablonovski faz parte de um grupo de voluntários que se uniu a pesquisadores do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) para manter um repositório de dados que traz informações valiosas para quem está gerenciando a crise. Eles foram os primeiros a usar imagens de satélite – e não projeções de modelos matemáticos – para definir mais precisamente a mancha de inundação em todo o Rio Grande do Sul. Em seguida, usaram os dados do Censo para compreender características da população afetada pelo evento climático.

O trabalho dos pesquisadores tem gerado descobertas importantes para enfrentar a crise e planejar a reconstrução.

O mapa abaixo mostra onde estão distribuídos os 47 milhões de toneladas de resíduos no estado. Eles estão concentrados em Porto Alegre e cidades da região metropolitana como Canoas, São Leopoldo e Eldorado do Sul.

Site oficial: Agência Pública

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