Descaso dos humanos por humanos: o extermínio dos Yanomami pela corrida do ouro

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Foto: Índios da etnia Yanomami
Foto: Índios da etnia Yanomami

Imagem: Divulgação | Pela ação dos seres humanos brancos, organizados em grupos de garimpeiros, madeireiros e traficantes, a região da Floresta Amazônica é explorada em busca do lucro, poluindo rios e promovendo um genocídio biopolítico

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Março de 2023 – Em 2022, após as eleições presidenciais no Brasil, vimos o flagrante delito da potência e dos atos aristotélicos em relação às políticas públicas e às prioridades privadas com a denúncia sobre outro agrupamento humano submetido à desumanidade em nome da lógica do capital. Por mais óbvio que pareça, a desumanidade só é realizada por seres humanos que, nesse caso, resolvem desumanizar outros seres humanos.

A etnia Yanomami, distribuída pela Floresta Amazônica entre os estados de Roraima e Amazonas, alcançando o Sul da Venezuela, tem, aproximadamente, 9,6 milhões de hectares e mais de 250 aldeias, além de ser um dos poucos grupos recentes em contato com as populações brancas. Muitos diriam que: “é muita terra para pouco índio”

Mas, perguntamos: eles não são seres humanos que protegem a natureza e que vivem de seus recursos sem a desumanização de outros seres humanos?

Justificando o injustificável, suas terras são de enorme valor ambiental e econômico, com minérios valiosíssimos, matérias-primas, plantas e animais. Pela ação dos seres humanos brancos, organizados em grupos de garimpeiros, madeireiros e traficantes, a região é explorada em busca do lucro, poluindo rios e promovendo um genocídio biopolítico que consiste no extermínio por meio do uso político e econômico que adoece, escraviza e executa corpos e mentes de milhares de seres humanos em nome de um estado de exceção em que se decide quem tem direitos e quem tem deveres.  

Em 14 de novembro, perto de Boa Vista, capital de Roraima, foi encontrada uma estrada clandestina de 150 km de extensão com o objetivo de facilitar a passagem não de seres humanos, mas de máquinas, tratores e embarcações que — se juntarmos os pagamentos de todos os peões e garimpeiros — não daria 1% do valor desse investimento. Então, por isso, fica evidente que há, por traz dessa ação, organizações poderosas que não sujam as mãos de sangue, nem de terra e muito menos de mercúrio, mas contemplam a morte, a miséria e a desumanidade.

Vemos que, seguindo o destino dos Munduruku e Kaiapó, os Yanomami viveram o abandono total das autoridades diante de uma catástrofe humanitária que é refletida pela impunidade de quem um dia queimou um índio pensando que era um mendigo ou estuprou meninas indígenas atentando para que fossem maiores de 18 anos. Percebemos que os campos de concentração que ficaram muito conhecidos na Alemanha nazista permanecem como instituições reais de mecanismo de controle e exploração à mercê do Estado.

A realidade é, basicamente, o descaso do ser humano por outro ser humano. Esse menosprezo torna-se realizável por meio da corrida do ouro, da ideia de viver incluído na permanência da sociedade dos privilégios.

Desde a velocidade das máquinas, que o tempo não é mais de todos os seres humanos, mas apenas de alguns.

Há poucos de nós que são donos do tempo. Da circulação de mercadorias e de moedas ao holocausto de povos apátridas e desterritorializados, vemos a vontade geral da concentração de terra, de renda e de poder em 1% da população mundial e, também, brasileira.

A exploração das riquezas naturais, a prostituição, a escravidão e o extermínio sumário ou prolongado se traduzem bio-politicamente, ou seja, realizam-se pelo poder que manipula a vida do outro e, sobretudo, do outro que, em sua vida desprovida de direitos ou em sua Vida Nua, identifica-se como opositor perante àquele que se torna o outro.

Essa é a máxima do alcance da subjetividade humana contra a própria espécie e que, necessariamente, não deve ser vista como igual. Assim, os órgãos públicos que defenderiam todos os seres humanos não o fazem, mas, pelo contrário, justificam-se no próprio Estado sua representatividade de poucos seres humanos para garantir o privilégio de desumanizar àqueles que se tornam um empecilho ao progresso.

O genocídio do povo Yanomami acrescentou mais um capítulo em nossa história dos vencidos, em nossa natureza hobbesiana, em que vemos retratado o desamparo de uma criança esquelética ou de um retirante definhando o corpo e subtraindo a vida como denunciado nas obras de Portinari.

Mas, isso não é comum? Não é normal? Não foi sempre assim na História?

Em nossos tempos vividos, a corrida do ouro permanece em seu caminho, lado a lado, com a tecnologia e com o extermínio de humanos por humanos que não são apenas diferentes ou desiguais, mas, também, indesejáveis. Essa é a vitória de poucos, mas a derrota de todos.

O extermínio não é da natureza, mas é do humano.

Sobre os autores

Universidade Presbiteriana Mackenzie é uma instituição de ensino superior privada e confessional no Brasil.
  • Sérgio Ribeiro dos Santos é Historiador e Professor Doutor do Centro de Educação, Filosofia e Teologia (CEFT) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).
  • Wesley Espinosa Santana é Historiador e Professor Doutor do Centro de Educação, Filosofia e Teologia (CEFT) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).

Sobre a Universidade Presbiteriana Mackenzie 

A Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) está na 71a posição entre as melhores instituições de ensino da América Latina, segundo a pesquisa Times Higher Education 2021, uma organização internacional de pesquisa educacional, que avalia o desempenho de instituições de ensino médio, superior e pós-graduação. Comemorando 70 anos, a UPM possui três campi no estado de São Paulo, em Higienópolis, Alphaville e Campinas. Os cursos oferecidos pelo Mackenzie contemplam Graduação, Pós-Graduação, Mestrado e Doutorado, Pós-Graduação Especialização, Extensão, EaD, Cursos In Company e Centro de Línguas Estrangeiras.

Site: https://www.mackenzie.br

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