Educação, ativismo local e agenda nacional para redução das desigualdades são indispensáveis para combater as mudanças climáticas

Imagem: congerdesign |Pixabay

No Brasil, 9 em cada 10 cidadãos concordam que o aquecimento global é um problema urgente a ser enfrentado, segundo recente pesquisa do Ibope. Apesar dessa consciência, o país está em observação internacional devido aos níveis recordes de desmatamento que vêm sendo registrados nos últimos dois anos, e que impactam diretamente na emissão dos gases de efeito estufa.

Para equacionar essa difícil questão, é preciso que haja uma união de todas as camadas da sociedade, incluindo governos, cidadãos e iniciativa privada. Essa foi a conclusão de especialistas que participaram do segundo painel do Davos Lab, realizado nesta segunda-feira (01/02), com o tema “mudanças climáticas”. Participaram do bate-papo a apresentadora Bela Gil, o empresário Finho Levy, a administradora Natalie Unterstell e o professor Ricardo Abramovay.

Foi unânime o entendimento de que encontrar soluções para frear as mudanças climáticas e as destruições ambientais é uma tarefa para lá de complexa, que envolve diversos players e ataca questões como educação, ativismo e desigualdade social.

“Temos que ter muita clareza quando falamos de soluções, porque não dá para ser uma meia solução, isso não vai resolver a mudança do clima. Precisamos de uma combinação potente e também uma mudança grande no setor privado. Não é nem na ideia de consumo em si, mas no sonho que temos como cidadãos. Esses sonhos terão que mudar”, defendeu Natalie Unterstell.

A administradora, que atua no thinktank Talanoa, reconhece que não será possível abolir do dia para a noite um sistema calcado em combustíveis fósseis e em desmatamento. Isso é um processo de transição, em que um novo sistema precisa estar estruturado para suprir as necessidades do mundo.

“O petróleo e o desmatamento não vão fazer parte do futuro, mas precisamos lidar com eles agora. A economia baseada em petróleo está morrendo, mas devemos ter um espaço de diálogo para tratar disso”, afirmou.

Neste sentido, Ricardo Abramovay defende que haja uma sociedade civil organizada, no sentido de ativismo local e também de alcance macro, com destaque para a redução das desigualdades.

“Não podemos ter um reset só econômico, é preciso ser na nossa maneira de pensar, de existir. E um lado disso é a mobilização social. Cito um exemplo extraordinário, que é o movimento ‘concertação pela Amazônia‘. Depois de agosto de 2019, quando o céu de São Paulo escureceu em função das queimadas houve uma indignação generalizada da comunidade global, mas houve também uma mobilização importante de diferentes setores brasileiros”, disse.

“São ativistas que estão conseguindo, apesar de estarem sob ataque permanentemente, atrair empresas brasileiras tocadas pelos problemas sócio ambientais. Isso resultou em uma concertação que reúne ativistas, governos estaduais e empresas. Eles estão elaborando um verdadeiro plano para a Amazônia“, relatou.

Para ele, a ideia de biodiversidade, que envolve um meio ambiente saudável, assim como sua população, tem que estar no comando da economia.

“Se a gente não conseguir colocar a biodiversidade no comando, nós não seremos capazes de compatibilizar a satisfação das necessidades humanas dos 10 bilhões de habitantes que seremos em 2050 com os limites da natureza. Pensar só em economia não nos abre para fazer essa compatibilização, precisamos pensar em todas essas disciplinas com foco na redução da desigualdade“.

Dar conta de todo esse processo, defendeu Bela Gil, começa por uma educação de base às crianças e jovens sobre a importância de mudar a forma com que se lida com o meio ambiente, a partir de políticas públicas.

“Acredito que o mais importante quando se fala de mudança comportamental é a educação. É algo fundamental. Mas o conhecimento sobre o aquecimento global não basta, é preciso também de oportunidades e acesso para se colocar em prática”.

A apresentadora apontou, por exemplo, a falta de políticas públicas que subsidiam alimentos orgânicos, que valorizem produtores que não utilizam agrotóxicos e nem têm o desmatamento como regra.

“Precisamos sim de ações individuais e de pressões empresariais, mas, principalmente, precisamos de ações governamentais para que isso aconteça. Por que a gente não tem nos supermercados os produtos com serviços ambientais atribuídos subsidiados?”, questionou.

Segundo Finho Levy, um dos fundadores do movimento Capitalismo Consciente, hoje o consumidor é um elemento chave para impulsionar essa mudança no sistema.

“O cidadão hoje tem um poder muito grande e evidente porque ele é quem decide se vai comprar alguma coisa ou não. A cidadania, quando organizada, pode fazer mais para exigir o respeito ao meio ambiente“, afirmou.

Levy sugeriu, por exemplo, que o empreendedorismo consciente tem sido uma grande saída para os jovens apresentarem suas ideias sustentáveis para o mundo.

“Acho que o ativismo produtivo tem um viés de fazer aquilo que dá para fazer, que pode ajudar a mudar o padrão de consumo“.

O que é o Davos LAB Brasil?

Iniciativa da Comunidade Global Shapers para inspirar, capacitar e conectar jovens para moldar a resposta global sem precedentes e de base necessária para enfrentar a pandemia de coronavírus e outras crises convergentes do mundo. Agregando as percepções, ideias e preocupações dos cidadãos e partes interessadas em mais de 150 países em todo o mundo, o Davos Lab culminará em um plano de recuperação voltado para a juventude, apresentando ações tangíveis para criar um futuro melhor.

O plano de recuperação orientado para os jovens (crowdsourced através de uma campanha de dez semanas de diálogos globais e pesquisas realizadas em todo o mundo) será lançado na Reunião Anual Especial do Fórum Econômico Mundial de 2021 e se concentrará em dez grandes esforços de recuperação para redefinir os aspectos econômicos, sociais e sistemas ambientais. Também guiará uma nova visão para o ativismo juvenil e ação coletiva para a década atual e além, com foco em liderança de sistemas, alinhamento intergeracional e muito mais.

Global Shapers

Iniciativa do Fórum Econômico Mundial fundada em 2011 que seleciona jovens líderes para serem agentes de mudança no mundo. Os Global Shapers desenvolvem e lideram seus centros baseados em cidades para implementar projetos de justiça social que promovam a missão do Fórum Econômico Mundial.

Crédito:
Imprensa| Davos Lab | Global Shapers

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